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Agosto/2011

Contraponto

Formação ética


Pode a virtude ser ensinada?



A sensação de que vivemos uma grave "crise ética" parece generalizada. E nossas experiências cotidianas, como a leitura de um jornal ou o trânsito das grandes cidades, a violência banal ou o comportamento dos alunos em sala de aula são alguns dos exemplos recorrentes a confirmar nosso profundo mal-estar com essa dimensão de nossa existência social. Para uns faz-se necessário um "resgate de valores", como se fosse possível voltar o relógio do tempo e "restaurar" uma suposta ordem perdida. Para outros, trata-se de construir uma nova sociedade a partir de certos princípios e normas estabelecidos, como se uma ordem política pudesse ser "fabricada", a exemplo de um artefato qualquer. Mas em ambos os casos deposita-se na educação a esperança de uma transformação significativa.

Embora tendamos a crer que essa "crise" - ou pelo menos sua forma mais aguda - é uma marca de nosso tempo, um passeio pela literatura e pela filosofia antigas nos sugere que a preocupação para com a formação ética dos jovens remonta pelo menos ao início da tradição do pensamento ocidental. Ela está presente em poemas épicos de Homero e de Hesíodo, em tragédias e comédias de Sófocles ou de Aristófanes e, sobretudo, é objeto constante de reflexão e debate em obras da filosofia clássica. Nos diálogos platônicos nos deparamos com a pergunta recorrente e radical de Sócrates: A virtude -  a excelência ética; o caráter digno de louvor - pode ser ensinada ?

Esse aparente ceticismo - que não pergunta como ensinar, mas se é possível ensinar algo como uma conduta ou o discernimento ético - soa pelo menos paradoxal. Ora, por ocasião do julgamento que o levará à morte, Sócrates afirma, em sua defesa, que nunca fez outra coisa senão andar por aí persuadindo velhos e moços a cuidar menos do corpo e das riquezas do que da alma e da virtude. Como se pode, então, duvidar da importância de um mestre na formação ética, se toda sua vida - e mesmo sua morte - teve como princípio levar seus companheiros ao exame do sentido de termos como "justiça", "virtude" ou "piedade"? Não seria ele o exemplo de que a virtude ética pode e deve ser ensinada?

Mas, ao insistir em sua questão radical, Sócrates força seus interlocutores a se darem conta de que a formação ética não equivale nem deriva da mera posse de uma informação . Não basta informar a alguém que a "solidariedade" é uma virtude para ensiná-lo a "ser honesto"; como não basta informar a alguém que o cigarro tem substâncias danosas à saúde para levá-lo a parar de fumar. Se "ensinar a virtude" não se confunde com transmitir uma informação, tampouco se assemelha ao treinamento numa capacidade ou competência (numa techné , como diziam os gregos), como quando ensinamos alguém a fazer uma mesa ou a ler e escrever.

Uma pessoa pode ter amplo domínio de uma capacidade ou competência - como a retórica - e utilizá-la "para o mal" (alguém duvida de que Hitler era um competente orador?); mas jamais diríamos que alguém aprendeu a tomar decisões "sábias e justas", mas o faz "para o mal", até porque neste caso elas não seriam sábias nem justas. A formação para a "virtude ética" não se confunde, pois, com o ensino e a aprendizagem de informações, técnicas ou competências. Mas, então e afinal, é ou não possível "ensinar a virtude", formar eticamente? Ao silenciar sobre sua resposta, Sócrates nos obriga a buscar a nossa; o que, convenhamos, é uma lição de ética.

José Sérgio Fonseca de Carvalho Doutor em filosofia da educação pela Feusp
jsfc@editorasegmento.com.br

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